OUVIMOS

  • MAX RECORDS as Max in Warner Bros. Pictures’, Legendary Pictures’ and Village Roadshow Pictures’ “Where The Wild Things Are,” distributed by Warner Bros. Pictures.
PHOTOGRAPHS TO BE USED SOLELY FOR ADVERTISING, PROMOTION, PUBLICITY OR REVIEWS OF THIS SPECIFIC MOTION PICTURE AND TO REMAIN THE PROPERTY OF THE STUDIO. NOT FOR SALE OR REDISTRIBUTION.
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Dorivando Saravá, O Preto Que Virou Mar

 

E Todo Caminho Deu no Mar

Dirigido por Henrique Dantas e lançado em 2019, – pela Hamaca Filmes com co-produção do Canal Curta! -, o premiado documentário “Dorivando Saravá, O Preto Que Virou Mar”, de forma delicada e poética, apresenta a vida e obra de Dorival Caymmi (1914-2008), tendo sua negritude como o fio condutor da narrativa.

Como colunista, editora musical no Cine.RG e cantora, assisti ao documentário a convite do “In-Edit Brasil – Festival Internacional do Documentário Musical”, – evento que nasceu em Barcelona e atualmente é realizado em diversos países -, neste ano, sua 12º edição chega ao público brasileiro em versão online, entre os dias 9 e 20 de setembro.

Já apontando a direção do navegar, – e tão envolvente quanto o canto de Janaína-, “Vamos Chamar o Vento” (1959) é a canção de Caymmi que abre o filme documental:

 

“Quem ouve desde menino
Aprende a acreditar
Que o vento sopra o destino
Pelos caminhos do mar”
Caminhos do Mar (Dorival Caymmi)

Depoimentos em áudio, do próprio compositor, costuram o roteiro do filme. Caymmi explica como a espiritualidade, – aguçada pela sua dedicada vivência no Candomblé -, lhe pôs em sintonia com a natureza e com sua terra. Comenta ainda sobre a sua forma de assimilar e cumprir a missão de fé que lhe fora confiada. A gravação de “Canto de Nanã”, na qual Caymmi é acompanhado somente por tambores africanos e um coro de vozes, ilustra a tocante cena.

Ao lado dos amigos Jorge Amado (1912-2001), – também baiano -, e dos estrangeiros naturalizados Carybé (1911-97) e Pierre Verger (1902-96), Caymmi mostrou ao Brasil e ao mundo toda a riqueza cultural da Bahia, valorizando os Orixás, os trabalhadores do mar, as lendas e a descendência africana. Tornando-se inspiração para sucessivas gerações de músicos. No documentário, artistas como Gilberto Gil, Moraes Moreira, Tom Zé, João Donato, Adriana Calcanhotto, Letieres Leite, Marina De La Riva, Tiganá Santana, BNegão, Lucas Santtana e Mateus Aleluia, o produtor musical Roberto Sant’Ana e ainda, as filhas de Jorge Amado, – Paloma Amado -, e de Carybé, – Solange Bernabó -, prestam a devida reverência e relembram histórias, emocionantes e hilárias, vividas ao lado do mestre Caymmi.

Caymmi cantou muito mais o trabalho do que a sua lendária preguiça, como bem descreve na canção “Milagre”, – no longa-metragem, interpretada por Gil -. Ele era um operário da música, lapidava cada frase de uma nova composição por meses ou até anos. Explicando esse assunto, certa vez disse: “Vou compondo devagar e sempre, tu sabes como é, música com pressa é aquela droga que tem às pampas, sobrando por aí”. Ele respeitava o ócio criativo. Sabia se relacionar com o tempo da criação, com o tempo espiritual e com o bem-viver, em contrapondo ao ritmo demasiadamente acelerado e agressivo do capitalismo. Sagaz que era, Caymmi até fez um bom uso daquela sua fama de preguiçoso: “Eu passei a fazer do tipo preguiçoso uma arma. Pra evitar chatice eu digo que não faço porque tô com uma preguiça!”. Aliás, Caymmi também era pintor, mas dedicado como ele só, julgava não ter tempo suficiente para doar-se como gostaria a mais esse fazer artístico.

Caymmi tinha um grande poder de síntese em sua composição, com maestria, compilava em uma única canção o que há de mais essencial na música. Tudo era carinhosamente maturado: a letra, levada ao violão, interpretação vocal, pulsação e arranjos. A irretocável estrutura melodia e harmônica de suas músicas traduzia também o claro entendimento que detinha sobre o viver. Usava-se do mar, como figura de linguagem, para representar a infinitude e renovação da vida:

 

“Andei por andar, andei
E todo caminho deu no mar”

 

Não só o artista é apresentando no longa, mas também o homem Dorival, calmo, afetuoso, ritualístico, organizado, metódico, devotado à arte, aos amigos e à natureza, – já que ele tinha sensibilidade suficiente para perceber a representação da divindade dos Orixás, nas águas, nas plantas e nos animais -. A leitura de uma deliciosa e jocosa carta de Caymmi, endereçada ao parceiro Jorge Amado, nos leva a mergulhar cada vez mais em seu jeito de ser e na forma como ele via seu ofício.

Em “A Lenda do Abaeté”, gravação de 1959, Caymmi traz histórias de assombração, que ele ouvira quando criança. Após mudar-se para o Rio de Janeiro, alimentava uma saudade da Bahia de outrora, da terra de sua meninice, na qual, – em pensamentos ou por meio de suas canções -, ainda encontrava refúgio.

Apesar de ter tido um rápido envolvimento partidário, Dorival, não nutria grandes interesses pela política ou por ideologias, porém sua contribuição para a sociedade foi muito além. Mais do que um singular compositor, violonista e cantor, Caymmi foi também um revolucionário, – que com leveza, classe e altivez -, conseguiu a proeza de fazer sucesso cantando temáticas de afrodescendência e Orixás, enquanto, no Rio de Janeiro, Terreiros de Candomblé eram fechados pela polícia. Ele, – que por ser preto, teve sua vaga na Academia Baiana de Letras rejeitada, antes mesmo de receber o convite formal -, legou uma obra que nos leva a refletir sobre as agruras advindas da diáspora negra e sobre a importância de valorizarmos e entendermos a contribuição de todos os povos formadores do Brasil, sejam eles, indígenas, africanos ou europeus. Sobre tais questões Caymmi e seu parceiro Jorge Amado, já nos alertavam em “Retirantes (Vida de Negro)”, – gravação que tem extraordinário arranjo, assinado por Waltel Branco para a abertura da novela “A Escrava Isaura”, exibida pela Rede Globo em 1976 -. A partir dessa época, o artista passa a se colocar cada vez mais como personagem de suas próprias canções, valorizando suas tradições e negritude, aparecendo em fotos, por exemplo, usando colares de contas do Candomblé.

A cantiga “Oração de Mãe Menininha” embala o depoimento de Caymmi, no qual se define como um admirador das mulheres, entendendo-as como pessoas que exercem seus trabalhos no Candomblé e em outras esferas de suas vidas, com eficiência, beleza e uma cândida autoridade. Várias das músicas que compôs foram para mulheres, sempre tratando-as com adoração e carinho. Todas elas representavam sua amada companheira Stella Maris, – que faleceu apenas dez dias antes de Dorival, sem que ele soubesse de sua morte -.

Diversas outras músicas são mencionadas ou cantadas pelos artistas convidados do filme, tais como, as dolentes “É Doce Morrer no Mar”, – com Jorge Amado -, “A Jangada Voltou Só e “Noite de Temporal”, ambas de 1959, e ainda “Sargaço Mar”, de 1985. Essas letras mostram a relação de Caymmi como a morte, entendendo-a como uma transmutação ou recomeço. Para ele, a certeza do fim era um estímulo para fazer a vida valer. O mesmo homem que tanto cantou os encantos e mistérios do mar, também guardava um imenso respeito pelo Reino de Iemanjá: ele só adentrava ao mar, até o ponto em que a água batesse, no máximo, em seus joelhos.

Envolvente, bonito e sensível, o filme documental “Dorivando Saravá, O Preto Que Virou Mar”, é capaz de ampliar nossa visão de mundo, tirar nosso ar e elevar nossa alma, através de imagens primorosamente selecionas e de inteligentes recortes da magnífica e lúcida obra de Dorival Caymmi, – artista que foi um divisor de águas para a música e para a cultura brasileira -. Um gênio que eternizou sua arte orientando-se pela bússola da delicadeza, ternura, dedicação e do profundo respeito pelas pessoas, pela natureza e pela vida. Caymmi encantou-se! Dorival virou mar!

 

 

*Confira a música “É Doce Morrer no Mar”, nas vozes de MIRIANÊS ZABOT e OSWALDO BOSBAH, no show Saravá, Caymmi!:

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Sítio do Picapau Amarelo

 

Porque Era um Sonhador

Em 22 de agosto comemoramos o Dia do Folclore. É imprescindível para um país conhecer as suas raízes e tradições. A cultura popular brasileira é a nossa digital e também nossa bússola, pois observando o passado, poderemos edificar um belo futuro.

Cabe aos folcloristas, pesquisar e registrar o conjunto de saberes tradicionais de seu povo, que são as lendas, anedotas, crenças, músicas, danças, brincadeiras, vestuários e comidas típicas. Alguns dos mais importantes estudiosos do nosso folclore foram: o potiguar Luís da Câmara Cascudo, o paulistano Mário de Andrade e os gaúchos Paixão Côrtes e Barbosa Lessa, juntos eles nos deixaram um vasto acervo, fundamental para manter viva a cultura popular de diversas regiões do Brasil. Importantes escritores buscam no folclore a base para criar suas obras, entre eles, Monteiro Lobato, criador do “Sítio do Picapau Amarelo”, coleção de livros lançados a partir de 1920.

Agraciada pela UNESCO, com o prêmio de melhor programa infantil, a série de fantasia “Sítio do Picapau Amarelo”, produzida pela TV Globo de 1977 até 1986, é uma adaptação da obra de Monteiro Lobato, feita por Benedito Rui Barbosa e Wilson Rocha, sob a direção de Geraldo Casé. Aliás, antes de estrear na Globo, outras versões da fábula já haviam sido exibidas no cinema e na televisão, – pela Rede Tupi, TV Cultura e Rede Bandeirantes -, nas década de 50 e 60.

A trilha sonora e direção musical da primeira temporada do “Sítio do Picapau Amarelo”, ficou sob as competentes mãos de Dori Caymmi, que também assina, ao lado do diretor de produção Guto Graça Mello, os criativos arranjos, – que fazem referência a tradicionais gêneros da música brasileira e ao mesmo tempo os atualizam -. A direção de estúdio foi feita por Dori e João Carlos Botezelli (Pelão).

Um time de interpretes e compositores geniais foi escalado para a empreitada de criar canções, exclusivamente para os personagens do seriado. Cada artista adotaria um desses personagens para musicar. Mas Gilberto Gil tinha outros planos… Ao receber o convite de Dori, foi logo reivindicando: “Está todo mundo fazendo música para um personagem, eu quero logo é fazer uma música que fale de todos eles”. E assim nasceu o icônico tema de abertura:


Boneca de pano é gente
Sabugo de milho é gente
O sol nascente é tão belo
Sítio do Picapau Amarelo


Eis uma trilha sonora que encanta adultos e crianças!

Compositores, arranjadores e interpretes, souberam captar com perfeição a essência dos personagens Lobatianos. A menina Narizinho foi embalada pela doce e límpida voz de Lucinha Lins, na delicada canção de Ivan Lins e Vitor Martins, que conta com piano do próprio Ivan. Já o sonhador Pedrinho, para arquitetar seus grandes planos, ganhou música de Dori Caymmi e Paulo César Pinheiro, com interpretação etérea do grupo Aquarius.

O sobrenatural é tema para a música do preto velho, Tio Barnabé. Com percussividade africana, característica dos terreiros, a composição de Marlui Miranda, Jards Macalé e Xico Chaves, fala sobre orixás e lendas brasileiras, pelas vozes de Marlui e Jards. A acolhedora Tia Nastácia é acompanhada pela suave cantiga do mestre, Dorival Caymmi. Dona Benta, – que com seu jeito carinhoso, nos lembra da importância de ler e de contar histórias -, recebeu uma sensível canção, também de Ivan Lins e Vitor Martins, através do canto de Zé Luiz Mazziotti.

Personagens folclóricos como o peralta Saci-Pererê e a feiticeira jacaré Cuca, fazem parte da trama. O Saci é perfeitamente representado pela música jocosa e saltitante de Guto Graça Melo, com arranjo vocal do Papo de Anjo. O mesmo grupo também interpreta “Ploquet Pluft Nhoque (Jaboticaba)”, de Dori Caymmi e Paulo César Pinheiro. O Sítio, ainda recebe esporádicas visitas de outros seres do imaginário popular, como o Curupira, a Iara, e os assombrosos: Lobisomem e Mula-sem-cabeça. Até alguns mitos e heróis estrangeiros eventualmente dão ar da graça.

Nessa narrativa lúdica, objetos inanimados ganham vida. A serelepe boneca de pano, Emília, – considerada como um alter ego de Lobato -, teve suas birras e espertezas conduzidas pelo pulsante xote-baião, concebido e interpretado por Sérgio Ricardo. Visconde de Sabugosa é um sabugo de milho com conhecimentos enciclopédicos e ares de doutor, cujas aventuras são embaladas por um excelente samba de João Bosco e Aldir Blanc, contando com a interpretação e a levada singular do violão de Bosco.

A série apresenta fascinantes animais falantes, como o porco Rabicó, o carteiro Jabuti e Quindim, – um rinoceronte africano que, após fugir do circo onde sofria maus tratos, foi-se refugiar no Sítio do Picapau Amarelo -, eles porém, só foram ter músicas próprias com o lançamento do segundo LP do seriado. Também estão no elenco insetos, pássaros e peixes, – esses últimos, os habitantes do Reino das Águas Claras -, ganharam o tema “Peixe”, de Caetano Veloso, com arranjo moderno e minimalista interpretado pelos Doces Bárbaros.

Completam o repertório do primeiro LP da série, o baião “Arraial dos Tucanos”, de Geraldo Azevedo e Carlos Fernando, pelo qual Ronaldo Malta canta os anseios dos moradores do vilarejo, onde o pessoal do Sítio faz suas compras. O envolvente tema enaltece os que ganham seu sustento pelos frutos da terra, desejando apenas viver em paz. “Passaredo” é uma ode à natureza, em um grandioso arranjo vocal do MPB4. Enquanto finalizava essa letra, Chico Buarque de Hollanda, fez incansáveis ligações para um amigo botânico, perguntando: será que você não teria aí mais uns nomes de passarinhos para me informar? Resultado: quase 40 espécies foram aninhadas na sofisticada melodia de Francis Hime.

Além da beleza da música original da série, a apurada trilha fundo também merece destaque. No decorrer dos episódios, aparecem bonitos temas do cancioneiro, em versões instrumentais, é o caso do clássico “Tristeza do Jeca”, de Agenildo de Oliveira, – música do personagem Jeca -.

Vale destacar, a riqueza do vocabulário utilizado na narrativa. Apresentando o que há de mais bonito, poético e genuíno na cultura brasileira, estão: o caipira Jeca com seu fraseado matuto e o Tio Barnabé com sua sabedoria popular. Já o paquiderme Quindim, além de falar seu idioma pátrio, – o inglês -, ainda faz um elegante uso da língua portuguesa. Com sabedora, o Visconde serve-se de rebuscados termos científicos, frutos de suas incansáveis pesquisas literárias.

Por um lado, a obra de Monteiro Lobato contribuiu enormemente para divulgar e valorizar o folclore brasileiro, por outro lado, reverberou alguns estereótipos da época, como o racismo e preguiça do caipira. Nada que uma edição, feita com olhar delicado e gentil, não resolva, uma vez que essas abordagens acontecem em cenas pontuais. Demostrando que a história segue encantando sucessivas gerações, está previsto para 2022 o lançamento de um filme live-action, intitulado “De Volta ao Sítio do Picapau Amarelo”. Além disso, outras produções da série seguem em exibição, pela Globo e pelo Cartoon Network.

A música que nos é apresentada quando somos crianças, impacta nossa formação como cidadãos. São valores que levamos conosco por toda a vida. O estimulo sonoro que recebemos na infância, é nossa referência para lidar com os problemas que a vida nos apresenta, – se ouvimos músicas edificantes, estaremos predispostos a ter reações de maior empatia -. Além do desenvolvimento intelectual e moral, a música potencializa, nas crianças, as habilidades de aprendizagem e tem impacto no desenvolvimento físico e cognitivo. A música é, por fim, um veículo para aflorar emoções contidas.

 

*Confira a música “Sítio do Picapau Amarelo”, na voz de Mirianês Zabot:

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A Vida é Bela


Legado Paterno

Próximo domingo é o Dia dos Pais. Em nossa jornada pela vida, nos cabe aprender a honrá-los, pois foram eles que nos mostraram, através de suas atitudes, que “servir é a arte suprema”.

Dirigido e estrelado por Roberto Benigni, e com música original de Nicola Piovani, a comédia dramática “A Vida é Bela”, lançada em 1997, é uma das mais comoventes histórias sobre pais e filhos, já contadas pelo cinema. Em meio aos horrores do Holocausto, em um campo de concentração nazista, o judeu italiano Guido usa toda a sua imaginação e bom humor, para fazer com que seu pequeno filho Giosué acredite que tudo não passa de uma divertida gincana, com tarefas a cumprir e o objetivo de ganhar o grande prêmio: um tanque de verdade. Guido ainda encontra formas criativas de enviar mensagens de alento a sua esposa, também confinada. De forma lúdica e poética, o filme apresenta a mais nobre e a mais bestial das faces humanas.

O longa recebeu 9 premiações no David di Donatelli, 1 prêmio no Festival de Cannes, 3 Oscars, – incluindo o de Melhor Trilha Sonora -, e 1 indicação ao Grammy na categoria de Melhor Composição Instrumental. Antes do seu lançamento, surgiram críticas por conta da abordagem cômica que seria usada para falar de tamanha tragédia humana, porém, pela forma sensível como foi conduzido, a resistência inicial logo foi substituída por elogios, já que o filme em nada desrespeitou ou minimizou o sofrimento vivenciando pelas pessoas perseguidas durante a Segunda Guerra Mundial.

Destacam-se na trilha sonora de “A Vida é Bela”, as seguintes canções:

“La Vita è Bella” é a melodia alegre, leve e otimista, que aparece em cenas jocosas do filme, como por exemplo, quando Guido e seu amigo Ferruccio tentam colocar em prática o pensamento do filósofo Schopenhauer: quando há força de vontade tudo é possível. Essa é a ideia que norteia a vida do protagonista, – tanto nos dias mais suaves, quanto nos momentos sombrios -. A música retorna, como tema fundo para a hilariante cena de Guido, explicando às crianças de uma escola, o quanto é infundada a teoria da superioridade de raça.

“Boun Giorno Principessa” é a delicada canção que traduz a pureza e a autenticidade do amor entre Guido e Dora. O enredo do casal também é embalado por “Belle Nuit (Barcarolle)”, – ária da ópera “Os Contos de Hoffmann” -, interpretada por Montserrat Caballé e Shirley Verrett.

O conto de fadas de Giosué se torna realidade ao som da emocionante e arrebatadora “La Notte di Favola” e da marcha “Arriva il Carro Armato”. A bonita melodia “Abbiamo Vinto” enche nossos corações, no momento em que o menino reencontra sua mãe Dora e, – ainda eufórico e encantado -, lhe conta que acabara de ganhar seu tão desejado tanque. Essas músicas nos conectam com nossas emoções e lembranças mais profundas, despertando um sentimento de esperança e gratidão.

É impossível manter-se apático a tal sequência musical, que de forma sublime emoldura a história do amor incomensurável de um pai e de uma mãe, por seu filho. Músicas têm o poder de nos colocar em sintonia com boas vibrações e bons sentimentos. Portanto, vamos cultivar o hábito saudável de apreciar arte de qualidade, para que essas edificantes sensações tornem-se parte de nós.

Seja qual for a configuração familiar ou as circunstâncias que a vida venha a apresentar, o maior legado que um pai pode deixar para seu filho é mostrar-lhe o que é amar. Feliz Dia dos Pais!

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O Fabuloso Destino de Amélie Poulain


A Beleza Dos Dias

O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, lançado em 2001 sob a direção do francês Jean-Pierre Jeunet, é um filme cheio de sutilezas, que destaca o valor de cultivarmos e vivenciarmos os pequenos prazeres, como contraponto à solidão. Uma obra extremamente humana, que rendeu cinco indicações ao Oscar e uma ao Globo de Ouro, entre outras importantes premiações.

A envolvente trilha sonora, composta por Yann Tiersen, – descoberto por acaso pelo diretor do longa, graças a um de seus estagiário, que durante uma viagem de carro, estava ouvindo uma fita cassete do artista -, dá um tom jocoso para a história, de uma vida bem comum, protagonizada pela inocente Amélie Poulain. Nossa heroína cresceu isolada de outras crianças e recebeu pouco amor de seus pais, – que assim como todos os demais personagens, eram pessoas de gostos e hábitos simples -. Para fugir da frieza de seu pai, do nervosismo de sua mãe, e do tédio dos dias, Amélie inventava para si um mundo mais empolgante e cheio de aventuras.

O filme, rico em detalhes, merece ser apreciado com olhos atentos, principalmente às expressões da atriz Audrey Tautou, que soube captar com maestria as delicadas nuances da protagonista. As cores utilizadas durante todo filme foram vermelho e verde, acompanhados por uma luz laranja-amarelada. Essa combinação de cores, expressa a energia vital de Amélie, que a despeito de qualquer adversidade, mantem-se sempre otimista. O mesmo conjunto de cores representa também o processo de amadurecimento dessa personagem. Existe sinergia entre as cores, as sutilezas das interpretações e os detalhes das cenas, que se misturam lindamente com a música fundo.

A trilha fundo foi executada predominantemente por um acordeon, com algumas interversões ao piano e orquestrais. A escolha por um arranjo que traz o acordeon como protagonista é bastante interessante, já que pelo respirar de seu fole, esse instrumento revela a alma do enredo, criando uma atmosfera leve e lúdica, que nos coloca em um estado de bem-estar, em harmonia com nós mesmos, no mais perfeito fluir ao compasso da vida.

A única música com letra é a valsa “Si tu n’étais pas là”, de Gaston Claret e Pierre Bayle, que foi gravada em 1934, pela cantora e atriz francesa Fréhel, cujo nome de batismo é Marguerite Boulc’h, – uma ex-menina de rua, que aos cinco anos de idade, cantava acompanhada de um cego -. No filme, esse o registro fonográfico ecoou em uma estação de trem, vindo de uma vitrola, nostalgicamente acomodada no colo de um personagem, também cego.

Amélie desenvolveu um gosto por observar o mundo e as pequenas coisas, que ninguém mais vê, assim ela vive em um constante flerte com a solidão e, toda vez que esse sentimento se aproxima, ouvimos a introspectiva “Comptine d’un autre été, l’après midi”. Já “L’Autre valse d’Amélie” é o encantador tema que toca sempre que o amor se avizinha de algum dos personagens do filme.

Em um determinado momento, Amélie teve seu destino revelado: ajudar os outros através de pequenos gestos, levando assim, mais poesia e espanto a vida dessas pessoas. O tom fantástico, cômico e imaginativo do filme se fez presente quando ela apareceu fantasiada de Zorro, mantendo sua identidade em anonimato, de forma altruísta oferecia às pessoas, aquilo que mais lhes fazia falta. Com uma sensibilidade certeira, Amélie, conduziu o cego até a entrada do metrô, nesse rápido caminho que percorreram de braços dados, ela devolveu luz ao coração desse homem. Tornando-se seus olhos, com entusiasmo, ela narrou uma grande quantidade de detalhes presentes na rua e nas lojas por onde passaram. A dinâmica dessa inspiradora cena se deu com “La Valse d’Amélie”.

A contagiante “A quai” nos lembra de deixar a porta aberta, para que o inesperado possa acontecer. A marcha “Les jours tristes” enche nossos corações. Talvez seja, justamente, seu ritmo marcial quem nos coloca em movimento, com vontade ir à luta, expurgando os dias tristes. 

O filme mostra que o fabuloso está nas pequenas coisas, naqueles instantes que valem por uma eternidade. Uma oportunidade pode demorar muito para chegar e, ir embora bem depressa. A vida é feita de sucessivos acontecimentos, alguns bons, – outros ruins -, o que realmente importa, é sermos capazes de apreciar cada um desses mágicos acontecimentos.

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Orfeu Negro

 

Por um Momento de Sonho

Num 9 de julho, há 40 anos, Vinicius de Moraes nos deixava. Sua obra, no entanto permanece através do tempo. Ela corre mundo, alimentando nossa sensibilidade, mostrando que ainda somos, e sempre seremos, capazes de amar.

Baseado na peça teatral “Orfeu da Conceição” de Vinicius de Moraes, o filme “Orfeu Negro”, lançado em 1959, tem direção do francês Marcel Camus e trilha sonora assinada por Tom Jobim e Luiz Bonfá. Reconhecido internacionalmente, o longa faturou um Oscar e uma Palma de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro, tornando-se referência para a produção cinematográfica brasileira. Nos lembrando da grandeza da obra do Poetinha.

A peça “Orfeu da Conceição”, lançada três anos antes do filme, é de fundamental importância para a nossa música, pois marca o encontro de Tom e Vinicius, que deu origem ao que se tornaria a Bossa Nova, um dos mais importantes movimentos musicais brasileiros. Além das formidáveis canções da dupla, o convite, feito pelo já consagrado poeta e diplomata Vinicius de Moraes, para que juntos compusessem a trilha musical do espetáculo, rendeu aquela famosa frase dita pelo jovem Jobim: “Tem um dinheirinho nisso aí?”, mal sabia ele que tal parceria lhes renderia projeção mundial e garantiria um lugar de prestígio na história.

“Orfeu Negro” é um filme delicado, cheio de poesia e simbologia. Sua trilha de fundo se entrelaça com os sons da cidade. Uma música desliza harmoniosamente para outra música, ou para o afinado apito do navio que chegou ao cais da Cidade Maravilhosa, em pleno carnaval, trazendo a bordo a terna Eurídice, que chegara do sertão nordestino. Por meio de uma sinfonia carioca ou, melhor dizendo: um samba de enredo, o maestro soberano Tom Jobim, ao lado do não menos admirável Luiz Bonfá, nos apresentam a esse inebriante cenário.

Sambas, frevos, batucadas, feiras livres e o tradicional bondinho, dão o tom das festividades carnavalescas. O lúdico toma conta daqueles dias. Até mesmo um homem pobre, com suas vestes puídas, sai da loja de penhores com sua fantasia de rei, sentindo-se como tal, pelo menos enquanto durar o carnaval.

O envolvente “Frevo de Orfeu”, de Vinicius em parceria com Tom, nos apresenta ao sedutor protagonista, Orfeu, músico e morador do morro. O positivo samba “O Nosso Amor”, dos mesmos compositores, aponta o desejo de que essa contagiante felicidade perdure.

Na voz de Agostinho dos Santos, o lirismo do samba “A Felicidade”, de Vinicius e Tom, já nas primeiras cenas do filme, nos alerta para o quanto a felicidade pode ser efêmera, a exemplo da euforia do carnaval, que fatalmente acaba na quarta-feira de cinzas. É um suave anúncio do desenrolar desse enredo, que é um convite para pensarmos sobre a brevidade da vida.

 

A minha felicidade está sonhando
Nos olhos da minha namorada
É como esta noite, passando, passando
Em busca da madrugada
Falem baixo, por favor
Pra que ela acorde alegre com o dia
Oferecendo beijos de amor

 

A mesma música retorna mais adiante, quando além de descrever de forma muito sutil uma cena romântica, também demostra que a força do amor de Orfeu por Eurídice é capaz até de fazer com que o sol rompa o véu da noite, trazendo uma alegre manhã de carnaval. Com uma alusão ao mítico Orfeu grego, que para trazer de volta sua amada, do mundo dos mortos, não poderia olhá-la enquanto ela não estivesse novamente sob a luz do Sol. A ideia de levar essa história para uma favela no Rio de Janeiro surgiu quando, ao ler um livro sobre mitologia, Vinicius ouviu na vizinhança o som vindo de uma roda de samba.

 No mito grego, Orfeu tocava uma lira, ao som da qual ninguém podia conter a emoção. Já no filme, toca violão e ao cantar a comovente “Manhã de Carnaval”, de Luiz Bonfá e Antônio Maria, faz despertar o amor de Eurídice por ele, como almas que se reencontram. Esse samba se tornaria uma das músicas brasileiras mais regravadas, contabilizando quase 300 registros fonográficos, incluindo interpretações por grandes nomes da música mundial.

 

Manhã, tão bonita manhã
Na vida, uma nova canção
Cantando só teus olhos
Teu riso, tuas mãos
Pois há de haver um dia
Em que virás

 

Conforme descrito na tragédia grega, o Orfeu Negro também viaja ao submundo, para encontrar sua amada. A adaptação se dá em um terreiro de Umbanda, – religião de matiz africada surgida no subúrbio do Rio de Janeiro em 1908 -, onde o herói fala com sua Eurídice, uma última vez, entoando um ponto para Ogum Beira-Mar, em um gira de caboclos.

Após a tragédia de Orfeu, seu amigo Hermes, – uma referência ao deus grego mensageiro, inventor da lira e patrono dos poetas -, lhe ensina o valor da caridade e acima de tudo: da gratidão. Porque qualquer instante de encantamento, já terá iluminado o caminho de uma vida inteira.

O mágico encontro de Orfeu com Eurídice finda com “Samba de Orfeu”, outra parceria de Bonfá e Antônio Maria, coroando, – com uma das cenas mais bonitas do filme -, a certeza de que através da inocência das crianças, a alegria sempre haverá de renascer.

 

* Confira a música “A Felicidade”, no show Mirianês Zabot e Oswaldo Bosbah cantam Vinicius de Moraes:

  • MAX RECORDS as Max in Warner Bros. Pictures’, Legendary Pictures’ and Village Roadshow Pictures’ “Where The Wild Things Are,” distributed by Warner Bros. Pictures.
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Cidade de Deus

 

O Caminho do Bem

Em 19 de junho, comemoramos o Dia do Cinema Brasileiro. Foi nessa data, no ano de 1898, que Affonso Segretto registrou as primeiras imagens em movimento, feitas no nosso País. Ele filmou a sua entrada na Baía de Guanabara, a bordo do navio Brésil, retornando da Europa, após fazer um curso de operação de cinematógrafos.

Desde então, passaram-se mais de 120 anos de produções cinematográficas brasileiras. Dentre as quais, está o filme Cidade de Deus, que rendeu ao Brasil quatro indicações ao Oscar e uma indicação ao Globo de Ouro, – além de outras premiações -, colocando o cinema nacional em um novo patamar. Lançado em 2002, com direção de Fernando Meirelles e com música original de Antônio Pinto e Ed Côrtes, é uma adaptação do livro homônimo de Paulo Lins, escritor que cresceu na Cidade de Deus, subúrbio do Rio de Janeiro.

O longa conta a história de dois meninos, moradores da Cidade de Deus: Buscapé e Dadinho. O primeiro sonhava ser fotógrafo e o outro, queria ser bandido. A narrativa se desenrola sob o olhar de Buscapé, que se depara com a oportunidade de tirar a foto que mudaria sua vida ou que o levaria à morte.

A trilha sonora tem um papel fundamental para nos ambientar nessa história, nos conduzindo a uma época na qual a vida, mesmo sendo dura e violenta, parecia ter mais poesia. Eram os anos 60, quando surgiu a Cidade de Deus, trazendo a promessa de um paraíso para diversas famílias, que haviam ficado sem moradia, após enchentes e incêndios criminosos em suas favelas de origem. O sonho,  logo se transformou em uma nova favela carioca: sem água, luz, asfalto ou linhas de ônibus. Era um lugar esquecido, – onde o governo e os ricos jogavam o povo menos favorecido -, bem longe do cartão postal da cidade maravilhosa.

Citações instrumentais de canções icônicas aparecem, ao longo do filme, como que chamando nossa atenção para uma nova história, que começa a se desenrolar dentro da trama principal. Assim ocorre no breve romance entre Cabeleira e Berenice, que embalado pelo samba dolente “Preciso me Encontrar”, – composição de Candeia, eternizada na voz de Cartola em 1976 -, chega ao seu derradeiro e trágico fim, deixando sonhos por realizar, ao alvorar de mais um dia na Cidade de Deus.

 

“Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar…
Quero assistir ao sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar
Eu quero nascer
Quero viver”

 

Aliás, “Alvorada” é o nome da belíssima composição de Cartola, Carlos Cachaça e Hermínio Bello de Carvalho, lançada em 1974, no primeiro disco de Cartola, – quando o músico tinha 65 anos de idade -, com produção de João Carlos Botezelli (Pelão). Esse samba ilustra, com muito lirismo e otimismo, o dia a dia na Cidade de Deus, fazendo um contraponto entre o amor do casal Cabeleira e Berenice e, as duras batidas policiais feitas na favela, em busca dos responsáveis por um roubo que acabou em chacina, impactando irremediavelmente a vida de vários personagens.

 

“Alvorada lá no morro
Que beleza
Ninguém chora
Não há tristeza
Ninguém sente dissabor”

 

O tempo foi passando e a trilha sonora seguiu tal cronologia. A Soul Music, a brasileira, de “Azul da Cor do Mar”, – lançada em 1970 pelo próprio compositor Tim Maia -, e “Na Rua, na Chuva, na Fazenda (Casinha de Sapê)”, – composta e interpretada por Hyldon em 1975 -, tocava nos Bailes Black que agitavam a favela nos anos 70, embalando romances adolescentes. Sucessos da Soul Music e do Funk americanos também batiam cartão nessas festas, com músicas como “Get Up (I Feel Like Being A) Sex Machine”, de James Brown,  “Kung Fu Fighting”, de Carl Douglas e “Dance Across The Floor”, de Jimmy Bo Horne, lançadas em 1970, 74 e 78, respectivamente.

O filme mostra detalhes sobre o surgimento, funcionamento e leis do tráfico, bem como o dilema que jovens da comunidade enfrentavam: ganhar a vida honestamente ou pertencer ao mundo do crime. Porque, àquela altura, a Cidade de Deus já tinha um dono ditando as regras que a população deveria seguir. Ocorrem também as primeiras guerras entre gangues, ceifando a vida de crianças e outros inocentes, pelo objetivo de conquistar o domínio dos pontos de venda de drogas.

“Metamorfose Ambulante”, música de Raul Seixas lançada em 1973, ilustra o anseio por mudança interior e exterior, do traficante Bené que, a partir daquele momento, se apresenta como uma figura carismática na favela, – boa praça e com ares de playboy -. Ao contrário de seu sócio Zé Pequeno, – o Dadinho, lá do começo do filme -, que desde criança já tocava o terror e, com o tempo, se transformou em um violento traficante, profissionalizando o negócio do crime e levando à comunidade o comércio de drogas mais pesadas.

O hard rock “Hold Back The Water”, lançado em 1973 pelo grupo canadense Bachman-Turner Overdrive, apareceu na  trilha para ilustrar que a vida na Cidade de Deus significava estar constantemente no fio da navalha. Um alegre baile, por exemplo, em instantes poderia se tornar uma tragédia.

A Cidade de Deus, que abarcava diferentes crenças, era também um purgatório na terra, onde a violência gerava mais violência, em infindáveis ciclos de vingança. Vejamos o caso de Zé Galinha: honesto ex-atirador do batalhão do exército, que só queria viver “O Caminho do Bem”. Após ter sua família brutalmente assassinada, ele entra para o universo do crime em busca de vingança, ao som de “Nem Vem Que Não Tem”, música de Carlos Imperial, lançada em 1967 por Wilson Simonal, inaugurando o movimento musical e cultural conhecido como Pilantragem.

 

“Pode aguardar
Que o mundo inteiro
Logo saberá
No Brasil primeiro
O caminho do bem”
O Caminho do Bem
(composição de Beto Cajueiro, Serginho Trombone e Paulinho Guitarra, lançada por Tim Maia em 1976)

 

A única música não lançada na mesma época em que a trama se passa, é “Convites Para a Vida”, de Antonio Pinto, Seu Jorge, Edmilson Capelupi e Fabio Goes. Essa foi gravada especialmente para o longa, e aparece durante os créditos, na voz de Seu Jorge.

O filme Cidade de Deus, tem uma excelente trilha sonora, que além de traduzir os personagens e enriquecer a cena, dá representatividade a importantes movimentos musicais brasileiros, valorizando baluartes da nossa cultura. Músicas são registros socioculturais muito precisos de cada época, uma vez que explicam seu tempo e alertam sobre os tempos vindouros.

 

*Confira agora a música “Alvorada”, na voz de MIRIANÊS ZABOT, em seu show Gafieiras e Outras Verves (Baile de Gafieira):

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A Princesa e o Sapo

 

Quando Formos Humanos

A Princesa e o Sapo, conta a história de Tiana, a primeira princesa negra a protagonizar um filme animado da Disney, lançado em 2009. Tudo se passa na misteriosa Nova Orleans, no estado da Louisiana (EUA).

Lembremos a célebre frase “canta a tua aldeia e serás universal”, pois é, a Disney fez exatamente isso em A Princesa e o Sapo. Causando em nós uma imediata identificação com o roteiro, que aborda de uma forma muito delicada e lúdica, o melhor e o pior da humanidade e da nossa sociedade. Através de personagens demasiadamente humanos e, exatamente por esse motivo, muito envolventes, o filme traz à luz de uma forma muito natural: de um lado questões como o racismo, a diferenciação de classes, ostentação, futilidade, preconceito, avareza e ganância; do outro lado valores como a pureza, o sonhar, perseverança, dignidade, trabalho, família, amizade, amor, alegria, música, religiosidade e ancestralidade. Esses elementos juntos compõem o que chamamos de Cultura de um povo, de uma aldeia. Tudo isso se faz presente na animação, bastar ter o coração aberto para sentir.

Para contar essa história e apresentar cada personagem, os diretores John Musker e Ron Clements, usaram a música como fio condutor. E não poderia ser diferente, já que tudo acontece durante o Carnaval, na musical Nova Orleans dos anos 1920.

A trilha sonora de A Princesa e o Sapo, assim como seu roteiro é contagiante. São letras, melodias e arranjos muito bem casados e cheios de referências à história da música do sul estadunidense e aos mestres do Jazz. A trilha da animação que marca o retorno da Disney ao formato dos musicais, foi agraciada com nomeações e prêmios por importantes entidades da indústria musical e cinematográfica, como Grammy Award, Oscar, Revista Billboar e Rhapsody. Todas as canções foram compostas por Randy Newman, exceto “Never Knew I Needed” de Ne-Yo, que não foi traduzida para o português. Entre as músicas que ganharam versão no nosso idioma, estão:

O Jazz “Quase Lá”, apresenta a esforçada e sonhadora Tiana, que desde criança tem o desejo de unir pessoas através da comida que ela serviria em seu restaurante. Nas palavras de seu pai: “Sabe o que a comida tem de bom? Ela reúne as pessoas de todas classes sociais, dá uma sensação boa e põe felicidade no rosto delas”.

 

“O meu pai me disse um dia
Tudo pode acontecer
Ver o sonho realizado
Só depende de você
Trabalhei bastante até aqui
Agora as coisas vão fluir…
Tantas lutas e problemas
Na vida tive já
Mas eu subi a montanha
Atravessei o rio
Estou chegando lá
Estou quase lá”

 

Já o fanfarrão Príncipe Naveen, sugere que o oposto seria uma ideia bem melhor…

 

“Cair na farra sem parar
Não soa nada mal…
Aproveite a vida então
Pra ter um pouco de diversão
É assim que as coisas são”
(Quando Formos Humanos)

 

A canção “Evangeline”, traz a pureza do vagalume Ray, que personifica o amor platônico por uma estrela que brilha no céu e que, ele acredita ser sua amada pirilampo a lhe esperar.

 

“Como ela tão linda assim
Poderia gostar de mim?
O amor sempre acha um caminho”

 

O Bluegrass começa a dar o tom em “Vamos Levar Vocês”, quando Ray conduz a festiva e reluzente quadrilha caipira de vagalumes “Pelo rio abaixo…“, em meio aos sinuosos pântanos da Louisiana.

O misticismo, que faz parte do imaginário de Nova Orleans, surge através do Dr. Facilier na música “Amigos do Outro Lado”. Ele pratica vodu, magia negra e faz pactos com forças sobrenaturais, em troca de favores.

Já a boa prática da religiosidade, aparecesse com a cativante cega, Mama Odie que, com sabedoria, nos faz enxergar a diferença entre “o que queremos” e “aquilo de que necessitamos realmente”. A personagem é uma homenagem à contadora de histórias orleniana, Coleen Salley. 

 

“Cavando mais até o fundo
Descobrir quem são
Cavando mais até o fundo
Não é difícil não
Só assim vão descobrir o que precisam ter
O brilho do sol pode crer”
(Cavando Mais Até o Fundo)

 

O destaque especial vai para Louis, o divertido crocodilo trompetista, cujo grande sonho é tocar Jazz de improviso com os humanos, sem apavorar ninguém, é claro! Louis representa todo amor e genuíno respeito que nós músicos, temos por ela, a música. Esse personagem, cujo nome é uma justa homenagem à lenda do Jazz e filho de Nova Orleans, Louis Armstrong, sintetiza toda a efervescência musical da cidade, que é considerada o berço desse gênero, que surgiu por influência dos ritmos e cultura africana, trazidos ao país pelos escravos.

 

“Se eu fosse um ser humano
Iria pra Nova Orleans
E com o meu trompete eu daria um show
Seria um dos galãs
Conhecem Louis Armstrong e Sr. Sidney Brushade
Todos eles vão aplaudir
Quando lhes contarem o que sei fazer”
(Quando Formos Humanos)


O filme musical A Princesa e o Sapo, mostra que os sonhos se realizam. E que se quisermos, podemos até substituí-los por novos e melhorados sonhos, no decorrer da vida. Já o repertório, nos inspira a sair dançando pela sala de casa… Sorrindo atoa!

Depois de assisti-lo, me conta se você, assim como eu, não sentiu uma vontadezinha de ir conhecer…

 

“Uma cidade por onde o rio desce…
Onde a música começa cedo
E continua até o sol raiar…
Se quiser o bom da vida aproveitar
Venha pra Nova Orleans…
Ricos e pobres seus sonhos vão
Realizar em Nova Orleans”
(Lá em Nova Orleans)

 

*Para saber mais sobre A Princesa e o Sapo, confira a coluna Assistimos do @quantospaulos: www.instagram.com/quantospaulos/PrincesaTiana